
Descobrir que outro órgão foi perfurado ou lesionado durante uma cirurgia costuma causar revolta e a impressão de que o médico necessariamente cometeu um erro. Porém, a lesão de um órgão próximo não comprova, sozinha, a existência de erro médico.
Em algumas cirurgias, órgãos, vasos e outras estruturas ficam muito próximas da região operada. Também podem existir aderências causadas por cirurgias anteriores, inflamações, endometriose, infecções ou características do próprio organismo. Nessas situações, uma lesão acidental pode ocorrer mesmo quando o profissional utiliza uma técnica adequada.
Isso não significa que toda perfuração seja aceitável. Para avaliar o caso, é necessário responder a quatro perguntas:
- A lesão era um risco conhecido daquela cirurgia?
- O paciente foi informado de maneira clara sobre esse risco?
- A técnica utilizada e a conduta adotada foram adequadas?
- A lesão foi identificada e tratada rapidamente ou a demora agravou o dano?
Portanto, a análise não termina no momento em que o órgão foi lesionado. Muitas vezes, o principal problema está na falta de informação, na forma de reparar a lesão ou na demora para descobrir e tratar a complicação.
Por que outro órgão pode ser lesionado durante uma cirurgia?
O corpo humano possui estruturas muito próximas umas das outras. Durante uma cirurgia, o médico precisa separar tecidos, controlar vasos e acessar uma região que pode estar cercada por outros órgãos.
O risco pode aumentar diante de aderências de cirurgias anteriores, inflamação, endometriose, tumores, sangramento, alterações anatômicas, infecção ou cirurgia de urgência.
Aderências são faixas de tecido que podem fazer estruturas normalmente separadas ficarem unidas. Nessa situação, a tentativa de liberar o órgão tratado pode atingir uma estrutura próxima, mesmo com cuidado.
Por isso, a ocorrência de uma lesão precisa ser analisada dentro das condições encontradas durante a operação.
Quais órgãos podem ser atingidos?
Isso depende da região operada. Entre os exemplos possíveis estão:
- intestino em cirurgias abdominais ou pélvicas;
- bexiga ou ureter em cirurgias ginecológicas;
- vasos sanguíneos em diferentes procedimentos;
- esôfago ou estômago em cirurgias da parte superior do abdome;
- nervos próximos à área operada;
- pulmão em determinados procedimentos no tórax.
Na histerectomia, que é a cirurgia de retirada do útero, pode existir risco de lesão da bexiga ou do ureter. O ureter é o canal que leva a urina do rim até a bexiga. Ele não deve ser confundido com a uretra, que leva a urina da bexiga para fora do corpo.
Essa proximidade anatômica explica por que uma lesão urinária pode ser uma complicação conhecida da histerectomia. Mas apenas uma avaliação técnica poderá dizer se, naquele caso, a lesão era inevitável ou decorreu de conduta inadequada.
Quando a perfuração pode não ser erro médico?
A lesão pode ser considerada uma complicação do procedimento quando:
- era um risco reconhecido para aquela cirurgia;
- as condições da paciente aumentavam a dificuldade;
- foi utilizada técnica aceita;
- não existem sinais de descuido ou atuação inadequada;
- a lesão foi identificada e tratada corretamente;
- o paciente recebeu informação prévia sobre a possibilidade.
O Superior Tribunal de Justiça já analisou caso em que a perfuração do intestino foi considerada um risco possível do procedimento. Em outro julgamento, a perícia concluiu que uma lesão intestinal era inerente à cirurgia e que não havia evidência de falha técnica.
Essas decisões mostram que uma lesão acidental pode acontecer sem negligência ou falta de habilidade do médico.
Quando pode existir erro médico?
A responsabilidade pode existir em três pontos diferentes: informação, técnica cirúrgica e atendimento posterior.
1. Quando o paciente não foi informado sobre o risco
Antes da cirurgia, o paciente deve receber explicações claras sobre:
- o objetivo do procedimento;
- as alternativas disponíveis;
- os riscos mais importantes;
- possíveis lesões de estruturas próximas;
- consequências dessas complicações;
- tratamentos que podem ser necessários se elas ocorrerem.
Essa informação deve aparecer em um termo de consentimento específico e compreensível. Um formulário genérico, que apenas menciona “riscos inerentes a qualquer cirurgia”, pode não demonstrar que o paciente foi realmente informado sobre a possibilidade de lesão de intestino, bexiga, ureter ou outra estrutura relevante.
A ausência de informação pode gerar responsabilidade própria, mesmo quando a lesão era um risco inevitável e não houve falha técnica.
Se não existe termo de consentimento ou se o documento não menciona o risco relevante, isso representa um forte sinal de falha no dever de informação. O médico e o hospital ainda podem tentar demonstrar que houve explicação por outros meios, mas a falta do registro escrito dificulta essa comprovação.
2. Quando houve falha na técnica ou na correção da lesão
Nem toda lesão é inevitável. Pode haver erro quando a perfuração decorre de atuação abaixo do cuidado esperado, escolha inadequada da técnica ou uso incorreto de instrumentos.
Também é possível que a lesão inicial seja uma complicação aceitável, mas a forma de corrigi-la seja inadequada.
Em decisão publicada em 2025, o STJ analisou caso de perfuração do esôfago durante cirurgia. A lesão em si foi considerada uma complicação prevista na literatura. A falha reconhecida estava na técnica escolhida para reparar o esôfago e na falta de informação sobre os riscos.
Esse exemplo mostra uma distinção importante:
O órgão pode ter sido atingido sem culpa, mas ainda pode existir erro na maneira como o problema foi tratado.
Para esclarecer essa questão, normalmente será necessária perícia médica.
3. Quando a lesão não foi identificada e tratada rapidamente
Algumas lesões são percebidas durante a cirurgia. Nesses casos, a equipe pode realizar o reparo imediatamente, chamar outro especialista ou adotar as providências necessárias.
Outras só apresentam sinais depois. O paciente pode ter dor intensa, febre, sangramento, dificuldade para urinar, alteração da urina, distensão abdominal, vômitos, fraqueza ou piora do estado geral.
O fato de a lesão não ter sido descoberta durante a operação não significa automaticamente erro. Algumas perfurações são pequenas ou difíceis de perceber. O ponto principal será verificar se os sintomas posteriores foram valorizados e investigados no momento adequado.
Pode existir negligência quando:
- o paciente relata sintomas importantes e não é examinado;
- a dor é tratada como normal apesar da piora;
- exames necessários são adiados;
- há alta hospitalar apesar de sinais preocupantes;
- mensagens e fotografias são ignoradas;
- ocorre demora injustificada para chamar outro especialista;
- o diagnóstico só é feito após infecção grave ou comprometimento do órgão.
O STJ já analisou caso em que a perfuração intestinal era um risco possível, mas houve falha porque a paciente não foi informada, recebeu alta precoce e seus sintomas não foram adequadamente valorizados. A demora permitiu o agravamento e o desenvolvimento de peritonite.
Perfuração descoberta durante a cirurgia é erro?
Não necessariamente. Na verdade, identificar a lesão ainda durante o procedimento pode permitir a correção imediata e reduzir as consequências.
É necessário verificar se o reparo foi adequado, se outro especialista deveria ter sido chamado, se a lesão foi registrada e comunicada e se houve monitoramento posterior.
Esconder a intercorrência ou deixar de registrá-la é diferente de reconhecer o problema, corrigi-lo e acompanhar o paciente.
E quando a lesão é descoberta dias depois?
A descoberta posterior também não prova, sozinha, que houve erro. Algumas complicações podem demorar para produzir sinais claros.
Porém, é necessário reconstruir a sequência:
- Quando surgiram os primeiros sintomas?
- O que o paciente relatou?
- Qual orientação foi dada?
- Houve exame presencial?
- Quais exames foram solicitados?
- Quando a lesão foi confirmada?
- O atraso aumentou o dano?
Se a demora causou infecção, perda de função, necessidade de nova cirurgia, uso prolongado de sondas ou internação em UTI, essa consequência precisa ser analisada separadamente.
Quais sintomas após a cirurgia exigem atenção?
Os sinais variam conforme o procedimento e o órgão atingido. Podem merecer avaliação rápida:
- dor intensa ou que piora;
- febre;
- barriga muito inchada ou endurecida;
- vômitos persistentes;
- sangramento importante;
- dificuldade ou impossibilidade de urinar;
- sangue na urina;
- redução importante da urina;
- saída de urina por local anormal;
- falta de ar, desmaio ou fraqueza intensa;
- secreção, mau cheiro ou piora da ferida.
Esses sintomas não confirmam uma perfuração, mas não devem ser ignorados.
Se você apresenta piora importante após uma cirurgia, procure atendimento médico de urgência. Não espere uma resposta jurídica ou apenas uma orientação por mensagem.
O termo de consentimento impede o paciente de processar?
Não. Assinar um termo não autoriza falha técnica, negligência ou demora no tratamento.
O documento serve para demonstrar que o paciente conhecia os riscos e aceitou realizar o procedimento. Ele pode afastar uma alegação de falta de informação quando for claro e adequado.
Mesmo com o termo assinado, ainda será possível investigar:
- se a lesão era evitável;
- se a técnica foi correta;
- se o reparo foi adequado;
- se a complicação foi identificada a tempo;
- se o pós-operatório foi bem conduzido.
Da mesma forma, constar a palavra “perfuração” no documento não transforma toda lesão em algo automaticamente aceitável.
Como provar que houve falha?
Os principais documentos são:
- prontuário completo;
- termo de consentimento;
- relatório ou descrição cirúrgica;
- ficha anestésica;
- registros da recuperação e da enfermagem;
- exames realizados antes e depois da cirurgia;
- relatório da nova cirurgia ou do reparo;
- mensagens enviadas ao médico ou hospital;
- fotografias e vídeos;
- relatórios de outros profissionais;
- comprovantes das despesas e do afastamento do trabalho.
O relatório da cirurgia deve indicar as condições encontradas, as dificuldades, a técnica utilizada, a intercorrência e as medidas adotadas.
Se o paciente precisou ser operado por outro profissional, o relatório dessa nova intervenção pode ser uma prova importante sobre o órgão lesionado, o estado encontrado e o tratamento realizado.
Por que a perícia é tão importante?
A perícia ajuda a separar uma complicação conhecida de uma falha médica.
O perito poderá analisar:
- a proximidade entre os órgãos;
- a existência de aderências ou dificuldade anatômica;
- a técnica utilizada;
- se a lesão poderia ter sido evitada;
- se foi reconhecida no momento possível;
- se o reparo escolhido era adequado;
- se os sintomas do pós-operatório exigiam investigação anterior;
- quais danos foram causados pelo atraso.
O paciente não precisa chegar ao escritório com um laudo afirmando que houve erro. A análise inicial pode ser feita com o prontuário, os exames e a linha do tempo.
Quem pode ser responsabilizado?
Dependendo da origem da falha, podem ser analisadas as responsabilidades do cirurgião, da equipe, do hospital, da clínica, do plano de saúde ou do poder público. É necessário identificar a participação de cada envolvido.
Quais indenizações podem ser pedidas?
Quando a falha e o dano são comprovados, podem ser discutidos:
- despesas com internações, medicamentos e exames;
- custos de nova cirurgia e reabilitação;
- perda de renda durante o afastamento;
- dano moral;
- dano estético;
- pensão, se houver redução permanente da capacidade de trabalho;
- custeio de tratamento futuro.
Não existe valor fixo. A indenização dependerá da gravidade da lesão, do tempo de tratamento, das sequelas, da necessidade de novas cirurgias e das consequências para a vida do paciente.
O que fazer se outro órgão foi lesionado durante sua cirurgia?
- Cuide primeiro da sua saúde e procure atendimento se houver piora.
- Solicite o prontuário completo da primeira cirurgia.
- Peça cópia do termo de consentimento e do relatório cirúrgico.
- Guarde os exames e relatórios do tratamento posterior.
- Preserve mensagens e fotografias.
- Faça uma linha do tempo com os sintomas e atendimentos.
- Guarde comprovantes de despesas e afastamentos.
- Procure análise jurídica e técnica do caso.
A pergunta não deve ser apenas “outro órgão foi perfurado?”, mas:
O risco foi informado, a lesão era evitável e o problema foi identificado e tratado no momento correto?
Perguntas frequentes
Perfurar o intestino durante uma cirurgia é sempre erro médico?
Não. Pode ser uma complicação conhecida, especialmente em cirurgias difíceis ou com aderências. É necessário analisar a técnica e o atendimento posterior.
Lesão de ureter durante histerectomia é erro?
Não automaticamente. O ureter fica próximo da região operada e pode ser atingido mesmo com cuidado. A perícia deverá avaliar as condições da cirurgia e a conduta adotada.
Não assinei termo de consentimento. Isso é importante?
Sim. A ausência do documento é um forte sinal de possível falha no dever de informação, especialmente se não houver outra prova de que o risco específico foi explicado.
O médico percebeu e corrigiu na mesma cirurgia. Ainda existe erro?
Não necessariamente. A identificação e a correção imediatas podem demonstrar assistência adequada. Ainda será necessário avaliar se a lesão era evitável e se o reparo foi correto.
A lesão só foi descoberta depois da alta. Isso prova negligência?
Não por si só. É preciso verificar quando os sintomas começaram, quais queixas foram feitas e se a equipe poderia ter identificado o problema antes.
Preciso de um laudo particular?
Não para buscar orientação. O prontuário e os exames podem permitir a análise inicial. Em eventual processo, normalmente haverá perícia judicial.
Conclusão
A perfuração ou lesão de outro órgão durante uma cirurgia não significa automaticamente erro médico. Dependendo da proximidade das estruturas, das aderências e da dificuldade do procedimento, ela pode ser uma complicação conhecida e inevitável.
Por outro lado, pode existir responsabilidade quando o paciente não foi informado sobre o risco, a lesão decorreu de técnica inadequada, o reparo foi incorreto ou os sintomas do pós-operatório foram ignorados, permitindo o agravamento.
Para esclarecer o caso, é necessário analisar o termo de consentimento, o relatório cirúrgico, os registros do pós-operatório, os exames e a rapidez do tratamento. A perícia costuma ser fundamental para diferenciar uma complicação de uma falha profissional.
Nosso escritório atua na análise de casos de erro médico e pode avaliar os documentos, reconstruir a sequência do atendimento e identificar a necessidade de análise técnica ou pericial.
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Fontes oficiais para consulta
Importante: este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa. A existência de responsabilidade jurídica depende da análise individual dos fatos, documentos, normas aplicáveis e provas disponíveis.

